Em algumas paróquias tornou-se hábito o seguinte "rito" ao longo do mês de setembro: somente após o Glória, os leitores e salmista entram carregando o Lecionário. Um dos leitores carrega o livro das Leituras e os demais seguram velas ou tochas. Se dirigem à mesa da Palavra e enquanto um lê, os demais o ladeiam com as velas ou tochas...
Esse tipo de situação acontece sob a justificativa de que o povo precisa ser alertado para a importância do mês de setembro, que no Brasil é reconhecido com o mês da Bíblia. Contudo, pensemos: como a presença de três pessoas na mesa da Palavra durante a proclamação da 1ª Leitura, Salmo e 2ª Leitura pode não dispersar a assembleia? A proclamação da Palavra de Deus é abafada pela "novidade" de tantas pessoas em torno do Lecionário. Uma leitora ajeita o cabelo, a outra troca a vela (ou tocha) de mão seguidas vezes por estar suando... Aparece ainda um coroinha, que auxilia a troca de vela pelo microfone. Quatro pessoas superlotando o altar para que o povo perceba que é o "mês da Bíblia"...
O Mês da Bíblia no Brasil surgiu em 1971, por iniciativa das Ir. Paulinas e da Arquidiocese de Belo Horizonte (MG), com o objetivo de promover a valorização da Sagrada Escritura entre os fiéis. Inicialmente celebrado no dia 30 de setembro, em memória de São Jerônimo, tradutor da Bíblia para o latim (a Vulgata), a celebração foi ampliada para todo o mês de setembro. A partir de 1985, a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) passou a coordenar nacionalmente essa iniciativa, escolhendo a cada ano um livro bíblico ou tema específico para estudo e aprofundamento. Desde então, setembro se tornou um tempo privilegiado para animar comunidades, promover formações bíblicas e incentivar o contato mais próximo com a Palavra de Deus.
Em 2025, a CNBB propõe vivenciar o Mês da Bíblia com foco na Carta aos Romanos e o lema “A esperança não decepciona” (Rm 5,5), em sintonia com o Ano Jubilar. As orientações incluem o uso do Texto-base e de roteiros para encontros comunitários, além de formações realizadas ao longo do ano, como o Seminário para Animadores (em abril) e o Seminário Bíblico online (2 a 4 de setembro), com reflexões sobre a vivência cristã e o ministério de Paulo. A missa de abertura, celebrada no Santuário de Aparecida, marcou o início desse tempo de aprofundamento na Palavra, com o convite a comunidades e fiéis para se engajarem com fé, estudo e esperança. A Conferência dos Bispos orienta, ainda, atenção especial para a leitura diária da Palavra, a Lectio Divina.
A IGMR nos ensina que não se deve levar o Lecionário na procissão de entrada ou em qualquer outro tipo de entrada. Apenas o Evangeliário pode ser levado na procissão de entrada.
IGMR 119: “Quando se realiza a procissão de entrada, preparem-se também o Evangeliário; aos domingos e dias festivos, o turíbulo (...); cruz a ser levada na procissão e castiçais com velas acesas”
Quem se encaminha para o altar na Missa sem diácono?
IGMR 120, (d): “O leitor, que pode conduzir um pouco elevado o Evangeliário, não, porém, o Lecionário”
Liturgia da Palavra:
IGMR 128: “O leitor, por sua vez, dirige-se ao ambão e, do Lecionário já ai colocado antes da missa, proclama a primeira leitura...”
Portanto, essa tentativa de elevar o mês da Bíblia ao status de Tempo Litúrgico não se justifica. A adoção deste tipo de atividade durante a Santa Missa nem contribui para uma melhor participação dos fiéis, nem está prevista nas normas litúrgica; ao contrário: não é permitida!